quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Os efeitos do esquecimento

"Tou farta desta vida.
Ando a morrer em pé.
Se me mexo fico mal-disposta.
Eu sei lá...
Uma Porcaria."

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Long Play



The Tramp



Last Supper




Fumo

Unhas por cortar.
Barba por fazer.
Como que um vulto omnipresente, o senhor Rufino afoga-se na luxúria da sua cama de madeira maciça.
Desperta sem saber porquê.
Ressuscitou do sono pesado que cerrava as suas pálpebras por meras horas.
Intrigado, ergue-se calmamente e dirige-se ao mini-bar da sua sala, decidido em preparar um Martin fresco e adocicado.
Acende o famoso cachimbo, relíquia de família certamente e deixa-se ficar ali.
Olha em redor, fixa os olhos na enormidade de prédios que preenchem a vizinhança, que conduzem as largas avenidas ao protagonismo irreverente do centro da cidade.
Estranho, pensou .
O movimento nocturno era superior ao habitual,e não se tratava da barulheira de sexta e sábado à noite.
Era mais uma terça-feira de um Inverno particularmente gélido e extremamente desagradável ao toque do vento nas faces de estranhos avermelhados, atordoados com a madrugada cortante, determinados em encontrar uma esquina que abrigasse o vazio que insistia em ficar.
Viúvo de limpezas, de preocupações.
Rufino apreciava com apreço a urbe, o espectáculo de luzes.
Ouvia murmúrios daqui e dali, escutava conversas a meio, advertia meticulosamente o desenvolver de gestos apaixonados.
Adiou por várias horas a decisão de se levantar, de voltar para as fronteiras do conforto muscular.
Já cansado visitou por instantes o frigorífico, em seguida a casa-de-banho.
Terminou a viagem no consolo de lençóis convidativos, e sem mais forças para resistir, caiu na luz débil e subtil que cobria timidamente o seu quarto.

sábado, 11 de julho de 2009

Rugas

Muitas vezes não me diz nada, e como já ando mal da vista e a idade não perdoa é-me difícil sentir a verdadeira essência.
No decorrer dos meus pesados 82 anos, questionei-me variadas vezes acerca do dito cujo.
Eram às centenas, na casa dos vizinhos, no meu corredor, em museus, em galerias.
Lá apareciam eles, colocados com cuidado num espacinho que sobrasse na parede branca e límpida, de aspecto solitário.
Alguns eram de notável beleza e esforço na sua execução.
Outros pareciam coisas sem jeito nenhum, feitas por uma criança de dois anos ou por um invisual..
Após tamanha reflexão, seria Arte ?
Um quadro preto com um risco branco no meio é considerado arte ?
Sempre tive em mente que o meu vizinho do resto-de-chão com jeito para a coisa faria um trabalho muito melhor.
Intrigada com o assunto analisei a questão em termos filosóficos, mas pouco ajudou, dado que me remetiam para um conjunto de teorias que tinham por base a relatividade da arte.
Eu cá continuo a achar que esta coisa das linhas direitas e da Arte comtemporânea é uma treta.
E como burro velho não aprende línguas, a questão manteve-se no meu pensamento por mais alguns instantes.
Até que me lembrei: "Ainda não vi o correio hoje!"
Apressada, vesti o robe azul-marinho e calcei as pantufas confortáveis a condizer e chamei o elevador.
Já com a chave na mão, abri a pequena caixinha de surpresas.
Fiquei radiante porque trouxeram a famosa DICA da Semana.
Um jornal grátis e interactivo que nos remete para os hiper-mercados do LIDL.
Subi lentamente as escadas e só descansei quando me sentei na poltrona esverdeada que decorava a minha sala.
Abri a parte dos passatempos, e comecei a fazer sudoku.
Já ao som de Amália Rodrigues, deixei-me Dormir.



@Rita - 12/7/2009

sexta-feira, 10 de julho de 2009